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Prólogo - Prostituta

em 02/08/2016 |


Meus pés tinham enormes calos pelas horas que passei, correndo pelas ruas de Boston, sem saber que rumo seguir. Minha pele encontrava-se completamente gélida pelo tempo congelante, que fazia naquela madrugada, e pelas poucas roupas em meu corpo. Podia ver a fumaça saindo de meus lábios entreabertos, enquanto suspirava. Sentia cada célula do meu corpo sendo congelada aos poucos.
Segurava a mão pequena e fria da minha irmã ao meu lado. Seus dentes se debatiam, causando um barulho quase insuportável. Sua mão solta abraçava-se, numa tentativa inútil de se aquecer. Suas pernas estavam bambas, quase não suportando a dor e o cansaço.
Apertei a mochila em minhas costas com uma mão, e a outra, a mão da minha irmã. Eu estava com muito medo de dar tudo errado, mas, se eu continuasse ali, tudo pioraria. As lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto e a angustia corroía-me por dentro. Tentei gritar inúmeras vezes, para que alguém me ouvisse e soubesse que eu precisava de ajuda, entretanto, minha garganta havia ficado seca e eu sabia apenas correr como uma covarde sem rumo algum.
Fugir era tudo o que eu conseguia pensar. Fugir e correr, até que pudéssemos ter uma noite de descanso. Fugir para bem longe daquele cretino, que tinha tirando toda a minha infância, e do inferno que acontecia no momento. Eu desejava apenas muita força para que pudesse continuar em pé naquela longa jornada. Cuidar da minha irmã era algo que eu teria que fazer a partir de então; era, acima de tudo, um alto cargo de responsabilidade que eu teria que carregar a partir de hoje.
Deixar tudo para trás era o que mais me doía. Ter deixado Harry e nem sequer ter me despedido eram umas das piores dores do mundo. Queria que Harry estivesse comigo neste momento, dizendo que tudo iria ficar bem, que isso tudo era apenas uma fase e que não existia inferno pior que o que vivíamos. Eu teria que me acostumar sem Harry comigo. Era difícil, mas eu teria que seguir sem ele. Era a melhor opção que tinha, porque eu não voltaria aquela casa nunca mais.
O barulho das minhas botas chocando no chão asfaltado era o único som audível naquela rua vazia. Tentei correr mais rápido, para ver se apagava as imagens que passavam repetidamente em minha mente, das mãos sujas do meu pai correndo pelo meu corpo, mas nada parecia ser o suficiente para tirá-las de lá. As palavras tão sujas e porcas quanto suas mãos ecoavam em minha cabeça, me causando náuseas e fazendo com que minha cabeça girasse sem parar. Era como estar em um cubículo sem portas e sem oxigênio. Sufocava-me cada vez mais.
— (Seunome), eu preciso descansar — pediu Anna, completamente ofegante pela longa corrida. Seu corpo estava gelado e suas penas fraquejaram, demonstrando imenso cansaço.
— Não podemos, Anna! — falei. — A qualquer hora, ele pode acordar, e ainda estamos no meio do caminho.
— Eu não aguento mais — despejou, caindo no chão, e eu a peguei no colo. Seu corpo estava tremendo, assim como o meu. Voltei a correr rápido com Anna em meus braços. Ela parecia estar fraca, e eu queria muito ajudá-la.
Depois de várias horas vagando pelas ruas, à procura de um lugar para que eu e Anna pudéssemos descansar, encontrei uma casa abandonada com portas e janelas quebradas. Empurrei o matagal, que havia se formado em frente à minúscula e assustadora casa. Abri a porta, fazendo com que um barulho alto incomodasse os meus ouvidos. O cheiro horrível de mofo entrou em minhas narinas, fazendo com que eu espirrasse. Sentei-me no chão e coloquei Anna em meu colo.
— Anna — chamei, e ela resmungou, com seu corpo implorando por descanso. Abracei-a e coloquei uma roupa qualquer para cobri-la. Não consegui fechar meus olhos por um segundo sequer naquela noite longa e turbulenta. As imagens me faziam ficar completamente acordada, com uma vontade imensa de voltar para casa e terminar de socar todo aquele resto de lixo.
Seguir em frente era tudo o que eu queria fazer, desde então. Não tinha casa, nem comida, apenas algumas roupas que havia trazido comigo, enquanto meu pai estava caído no chão de casa. Esperando ainda me lembrar do caminho à casa da minha tia Carmem, encostei minha cabeça na parede mofada, numa tentativa inútil de clarear meus pensamentos.

[...]

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