Image Map

Capítulo 03 | Famous

em 06/11/2020 |

O táxi para em frente à casa dos meus pais e eu sinto uma felicidade enorme me invadir por apenas pensar em estar junto a eles novamente depois de alguns meses distante de casa. O muro da casa havia sido pintado em um tom bege e há enfeites em tom marrom, como eu havia sugerido a minha mãe. O portão branco se abre quando toco a campainha.

Ainda há rosas vermelhas e perfumadas enfeitando nossa fachada, junto a outras plantas que minha mãe pegava mudas das vizinhas. Essa é a única coisa que eu acredito que não vai mudar tão cedo; minha mãe cuida todos os dias delas como se fossem suas filhas. Meu peito aperta em saudade, porque eu a ajudava a cuidar das rosas todos os dias. 

A porta de madeira se abre e minha mãe sorridente é a primeira coisa que vejo. Seus braços passam em volta do meu pescoço, enquanto as minhas vão para sua cintura. Ela me aperta tanto que quase sinto o ar faltar dos meus pulmões.

"Mamãe, dessa forma não sobra Ceci para matar nossa saudade" ouço Clarisse, minha irmã mais velha, falar. Há um pano de prato em suas mãos e eu deduzo que ela está cozinhando algo para comermos no jantar, já que está quase anoitecendo e ela ama cozinhar mais que qualquer pessoa no mundo inteiro.

"Como você está, meu bem?" minha mãe pergunta, segurando em meus braços, ao mesmo tempo que me analisa minuciosamente. Suas mãos apertam minhas bochechas e abrem mais meu olho como se estivesse me examinando em uma consulta médica "Está se alimentando bem em Londres?" assinto e ela me solta para que Clarisse venha ao meu encontro.

"Estou me virando com Hannah. Sabe que sem Clarisse dentro de casa eu sobrevivo de macarrão instantâneo e frutas" rimos e elas me dão espaço para entrar.

"E então?" Clarisse arqueia uma sobrancelha como se soubesse de tudo o que estava acontecendo comigo.

“Para de me olhar assim” reviro os olhos e ela me olha novamente, sorrindo maliciosamente.

“Estou interessada em saber sobre sua vida amorosa. Encontrou algum londrino gato?” minha mãe aparece na porta da cozinha.

“Clarisse, por favor, pare de encher sua irmã com a vida amorosa dela” Clarisse gargalha alto e irritantemente.

“Mamãe, Ceci tem que me contar sobre suas aventuras em Londres.”

Minha mãe tem um medo surreal de aparecer outro Wally em minha vida depois que ele me deixou. Não a culpo, porque eu também tenho. Por isso ela vive dizendo que eu não preciso apressar as coisas, tenho que fazê-las no tempo certo, ou seja, quando eu estiver preparada e eu às vezes tenho a sensação ruim de que não vou ficar preparada por um bom tempo. Infelizmente, o filho da mão deixou mais cicatrizes do que realmente pretendia.

“Você sabe muito bem o motivo, Clarisse! Não entendo o porquê de fazer disso uma piada” Clarisse revira os olhos e caminha até o meu lado, passando um dos braços por cima dos meus ombros.

“Eu sei, mas é que eu quero te ver viva novamente como ninguém. Quero te ver como você era antes de Wally aparecer.”

Meu pai interrompe a conversa quando desce as escadas com sua caixa de ferramentas em mãos junto a Will, o marido de Clarisse e eu os agradeço mentalmente. Falar sobre Wally ainda é cruel para mim. Eu tento me convencer de que é apenas um fantasma do passado, mas eu sei que é muito mais que isso. 

“Pai!” caminho até o final da escada e o abraço calorosamente.

“Como você está, querida?” suas mãos me envolvem, enquanto uma desliza sob meus cabelos.

"Estou muito bem, e você?" saio do seu abraço, mas sua mão não deixa minhas costas.

“Estou indo, meu bem! Há tanta coisa pra arrumar dentro de casa antes dos seus tios chegarem”

“Certo, pai! Não quero atrapalhar” meu pai beija minha testa antes de sair para o quintal.

“Oi, Will” o abraço “Como estão os negócios?”

“Melhor que nunca, Ceci! Obrigada por ter nos ajudado” sorri.

“Você sabe, desde que Clara e seu namorado quase não ficam por Lavenham, você é o meu cunhado favorito” Will gargalha alto e se afasta para ajudar meu pai.

Caminho até a cozinha, ainda com a mochila nas costas. O cheiro saudoso de comida impregnado em todo o cômodo e o chiado da panela de pressão me invadem veemente quando passo pela porta.

"Olá, meu bem!" cumprimenta Jade, minha tia. Ela está sentada à mesa, cortando os legumes e minha irmã já está de volta ao fogão, enquanto minha mãe lava os pratos. Todas estão ocupadas a espera dos meus tios, por causa do evento beneficente que ocorrerá amanhã.

Nossa vizinhança, incluindo os meus pais, criaram o evento para ajudar as família mais carentes da cidade, mas o projeto está tão grande que vários famosos da região têm contribuído, fazendo com que vários orfanatos fossem criados e inúmeras cestas básicas e roupas fossem distribuídas.

"Tem algo que eu possa fazer para ajudar?" todas as três negam de imediato.

"Você deve estar cansada" minha mãe responde e eu assinto.

Estou em uma rotina de faculdade-casa que estou sem tempo para descanso. Sempre que minha mãe me liga, conto um pouco sobre minha rotina louca de universitária e a monotonia desgastante dos meus dias "Vai deitar um pouco, quando a comida estiver pronta, eu te chamo."

Caminho até meu quarto e coloco minha mochila no canto da parede. Minhas fotografias ainda enfeitam a escrivaninha e meus livros a estante. Tudo como havia deixado da última vez e eu me sinto bem em saber que minha mãe não moveu nada do lugar, apenas limpou o pó e trocou as roupas de cama.

O quarto ainda tem o meu cheiro característico. Minhas fotos enfeitam a parede com um coração grande. Há tantas fotos antigas que é impossível olhar para elas e não sentir falta do passado.

"Posso entrar?" a cabeça da minha mãe aparece na porta e eu assinto, me jogando na cama "Eu senti tanto sua falta, Ceci" me abraça novamente "Você está tão estranha! Aconteceu alguma coisa nos últimos meses?".

"Posso fazer uma suposição?" pergunto e ela assente. Estou receosa em contar e ela descobrir que foi comigo que aconteceu toda essa reviravolta "Eu tenho uma amiga".

"Hannah?" pergunta e eu nego.

"Outra. Conheci ela tem alguns meses na faculdade" ela senta em minha cama e eu coloco os pés, livres dos sapatos e das meias, na parede.

"Oh!" sussurra "Você não me contou isso nas vezes que liguei pra você."

"Enfim, mãe" reviro os olhos por sua interrupção "Ela conheceu um cara em uma boate e ele contou a ela que era um roadie".

"Ele não ligou para ela?" passa uma de suas mãos em meus cabelos, tal como eu gostava.

"Também, mas ele mentiu para ela. Disse ser um roadie, um cara que ajuda na montagens e desmontagens do show” explico, sabendo que ela provavelmente não saberia o significado “Mas era um cantor" suspiro e ela permanece calada "Ele também não ligou nenhum dia do mês que se passou e fotos dos dois saíram na capa de algumas revistas e em alguns sites de fofoca."

"Vamos começar a tratar essas pessoas por nomes, certo? Não tem problema você sair com esse tal 'cantor'. Nem todos os caras vão ligar para você no dia seguinte" não era esse o maior dos problemas.

"Eu não me importo se ele ligaria ou não, mamãe, mas ele mentiu pra mim" resmungo e coloco as mãos atrás da cabeça, encarando a parede fria e branca à minha frente.

"Talvez ele estivesse cansado de todas as pessoas que têm interesse em seu dinheiro ao invés da sua amizade o tempo todo, querida" 

"Se ele tivesse contado, evitaria transtornos e fotos minhas pela internet" ela sorri, levantando-se da cama.

"E que história é essa de boate que eu não fiquei sabendo?" arqueia a sobrancelha.

"Hannah. Como sempre” ironizo.

"Por isso que gosto dela; ela te faz tirar o pijama e te leva para lugares mais sociais. Achei que demorou muito tempo para ela te levar uma segunda vez" caminha até a porta e a abre.

"Mãe!" exclamo e jogo uma almofada em sua direção, mas ela fecha a porta, evitando que a almofada caia nela.

A conversa na cozinha está tão alta que consigo escutar do meu quarto. As janelas de vidro estão abertas, dando-me a visão da árvore alta e bonita do quintal. Lembro-me de quando minhas irmãs e eu a plantamos no quintal com planos futuros de construir uma casa na árvore. No entanto, o plano nunca foi à frente. Quando a árvore cresceu o suficiente, Clarisse tinha acabado de noivar e eu estava saindo do ensino médio, enquanto Clara estava entrando.

A porta se abre novamente alguns minutos depois que minha mãe sai. Clara, minha irmã mais nova, aparece. Seus cabelos estão mais curtos e claros. Houve uma mudança radical em seu estilo. Agora ela parece um pouco hippie e mais como ela mesma ao invés de vestir uma capa fictícia de felicidade.

“Quem é vivo sempre aparece” fala, fechando a porta atrás de si.

Diferente de mim, Clara é cheia de vida e animada. Agora que formou, está seguindo a vida como mochileira junto ao seu namorado. Minha mãe e meu pai odeiam a ideia de que Clara fique viajando o mundo, porque pode ser perigoso. Eu e Clarisse, no entanto, estamos felizes por ela estar seguindo o sonho.

Clara caminha silenciosamente até minha cama e deita ao meu lado, colocando seus pés na parede ao lado dos meus. Seus cabelos, vermelhos como chama de fogo, se espalham na cama, deixando-os bagunçados.

“Você não é a pessoa mais qualificada para falar sobre isso, Clara! Vive viajando o mundo” Clara sorri e coloca os braços atrás da cabeça, começando a olhar as estrelas coladas no teto do quarto que brilham quando desligamos a luz.

“Senti sua falta” suspira alto e fecha os olhos.

Estamos sentindo a presença uma da outra, porque não nos vemos há quase um ano. Clara com suas viagens loucas e eu com minha faculdade.

“Eu também” afirmo e viro meu rosto para olhá-la “Como tem sido viajar o mundo?”

“Incrível” vejo seus olhos brilharem, como se viajar o mundo fosse muito mais do que ela consegue narrar “Foi a melhor experiência que já tive em anos, Ceci! Os lugares por onde passei... as pessoas. Foi tudo tão extraordinário e mágico” levanta os braços e gesticula com as mãos em excitação.

“Admiro sua coragem” o silêncio confortável se faz presente. 

“Não pude deixar de escutar sua conversa sobre o cantor com minha mãe” Clara quebra o silêncio alguns minutos depois e eu olho-a indignada por escutar a conversa alheia. Quase solto um sermão para ela parar com a mania de escutar atrás da porta “Acho que você deve um pouco de diversão a si mesma” afirma “Você está quase se formando em arquitetura e sequer deixa os livros.”

“Eu sei” suspiro “Eu quero encontrar alguém, mas não quero que seja algum famoso, Clara. Quero alguém que me entenda e fique por perto. Viajar o mundo é ótimo e excitante, mas a saudade é cruel.”

“Se você não arriscar, nunca irá saber” ela tem razão, no entanto, não consigo listar motivos suficientes que me façam querer me divertir um pouco com Harry “Se eu deixasse meus medos me impedirem de viver, nunca teria realizado meu maior sonho. Eu ficaria presa em algo que não me traz felicidade e isso é a pior coisa que alguém pode fazer; se privar da felicidade.”

“Posso pensar sobre, mas não posso dar certeza” Clara sorri “Porque estamos conversando sobre isso?  Harry e eu conversamos apenas uma vez.”

“Eu sou sua irmã mais nova e vivi mais aventuras que você em apenas um ano” Clara em momento algum cita Wally em nossa conversa e eu a agradeço por isso.

“Obrigada por afirmar que minha vida pacata é sem graça” ironizo e Clara sorri.

“Em algum momento alguém tinha que fazer e fico feliz que esse alguém tenha sido eu.” 

O silêncio se instala no quarto, enquanto encaro a madeira do teto e conto as estrelas da maneira mais lenta possível. Consigo ouvir a respiração alta e devagar de Clara misturando-se ao som do tique-taque do relógio na parede.

“Eu perdi o colar que vovó me deu” solto e mordo o lábio inferior. Sinto Clara me encarar silenciosamente e vejo seu peito subir e descer rapidamente em um suspiro baixo.

“Como?”

“Eu realmente não sei. Num dia ele estava em meu pescoço, noutro eu não fazia ideia onde estava. Procurei por dois dias em todos os lugares onde passei, mas nem sinal” Clara passa a mão em meu braço confortavelmente.

“Sinto muito” diz baixo, quase inaudível.

“Sei que sim” respondo da mesma forma e sorrio melancolicamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário