Há duas semanas estou carregando um vazio no pescoço e a decepção dentro de mim. Com o colar, sentia uma parte da minha avó comigo, mas agora a saudade parece ter triplicado desde que ela se foi e as lembranças voltaram dolorosamente.
Eu começo a me lembrar de todos os momentos felizes que passamos juntas e da saudade imensa que ela deixou. Tenho saudades de comer bolinhos de chuva escutando Elvis no volume máximo. São coisas pequenas que eu nunca terei de volta.
Coloco a mão no pescoço mais uma vez, sentindo minha pele nua quando deveria estar sentindo o colar, enquanto seco meu cabelo com o secador. É como se tivessem levado uma parte importante de mim. A minha parte mais importante.
Lembro-me dos seus cabelos grisalhos e emaranhados na cama do hospital, enquanto ela me entregava o colar nas mãos e pedia para ter o maior cuidado com ele. Meu peito aperta, como se alguém tivesse dado um nó cego. Sua pele estava empalidecida, enquanto eu chorava compulsivamente ao seu lado, rezando e implorando para que ela ficasse bem outra vez.
Minha avó sempre foi alegre e cheia de vida. Doença nenhuma nunca a abalou. Vê-la morrendo aos poucos quebrava meu coração em pedacinhos. Nunca imaginei que aquele dia chegaria. Parte de mim ainda ansiava pelo dia que voltaríamos a fazer bolinhos de chuva, escutando Elvis Presley em seu rádio velho da cozinha no volume máximo.
Meu celular começa a vibrar insistentemente em cima da escrivaninha, tirando-me dos meus devaneios. Desligo o secador e coloco-o no chão de maneira rápida. Caminho até a escrivaninha e deslizo o botão de atender, antes da chamada acabar.
“Alô?” aperto mais a toalha branca em meu corpo.
“Oi, Ceci!” a voz rouca e completamente cognoscível soa através do celular, me fazendo ficar estática.
Já se passaram duas semanas desde que Harry me deixou em casa e minhas esperanças estavam mortas no fundo do poço. Agora eu estou surpresa por sua ligação e por ter se lembrado de mim. Em minha concepção, astros do pop nunca ligam no dia seguinte. Como se fosse uma regra maldita para todos eles.
“Harry?” caminho até a cama e me sento.
“Acho que você deixou um colar cair em meu carro” suas palavras aliviam o peso que estava em meu peito desde o dia seguinte em que nos conhecemos. O dia que eu descobri sua verdadeira identidade e percebi que meu colar sumiu.
“Oh, meu Deus!” exclamo animada. Agora tudo faz sentido “Achei que o tinha perdido” minha euforia está em culminância. Estava tão perdida sem meu colar, que quase surtei com a possibilidade de nunca mais poder vê-lo. Se isso realmente acontecesse, eu não me perdoaria nunca.
“Você pode me encontrar daqui meia hora?” mordo meu lábio inferior. O domingo está agradável e a ideia parece boa. Quero pegar meu colar o mais rápido possível, porque não consigo ficar muito tempo sem ele. Ele se tornou parte de mim desde o dia em que eu o recebi.
“Claro” acho que saí um pouco mais animada que o esperado “Onde?”
“Vou mandar o endereço por mensagem” levanto-me da cama e caminho de volta ao secador.
“Certo”
“Até mais, linda” ele diz e desliga a chamada.
Com o cabelo quase seco, escolho uma calça de cintura alta e uma blusa de mangas curtas. Caminho até a sala, tentando passar despercebida dos comentários de Hannah, mas o tempo não está a meu favor, porque ela está deitada no sofá com a televisão ligada, mas sua atenção está completamente voltada a mim.
“Aonde você vai?” arqueia a sobrancelha em curiosidade.
“Encontrar com Harry” Hannah abre um sorriso malicioso, enquanto eu reviro os olhos e tiro minhas chaves da bolsa de lado “É uma longa história. Conto tudo quando chegar.”
“Divirta-se” escuto-a gritar, antes que eu feche a porta.
O céu está nublado, por isso deduzo que irá chover a qualquer momento. O frio abraça meu corpo, fazendo-me encolher e caminhar mais rápido até o uber que chamei antes de sair de casa.
Quando chego ao local onde marcamos, entrego o dinheiro da corrida ao motorista e vejo seu carro prateado partir rapidamente.
O local é uma rua repleta de casas, mas não há movimento algum. Deserto seria a descrição do lugar, se não fosse o carro de Harry parado ao lado de uma das casas. Eu sei que isso deveria realmente me preocupar, mas dessa forma eu me sinto segura, porque significa que não haverá paparazzi e sem eles, eu poderia continuar aliviada quando o assunto é faculdade. Não quero que nada me atrapalhe no final da minha caminhada. Foi tão difícil chegar onde cheguei.
Meus pais não me apoiaram quando decidi fazer faculdade de arquitetura, porque ambos queriam que eu e minhas irmãs fizessem medicina, mas todas nós seguimos caminhos diferentes. Clara é mochileira, canta em alguns bares e dá aulas online de francês, inglês, português e espanhol para ganhar a vida. Charlotte estudou gastronomia e abriu um restaurante pequeno e aconchegante na rua da nossa casa e eu, a última esperança, estou estudando para me tornar uma arquiteta. Apesar de nenhuma de nós seguirmos o caminho que ambos planejaram a vida inteira, estamos muito satisfeitas e felizes.
Harry está parado ao lado do carro com um gorro preto cobrindo seus cabelos, enquanto alguns fios escapam nas laterais. Tão bonito quanto eu consigo me lembrar. Seus olhos esverdeados cintilam sob a luz amarelada do poste.
Consigo ver suas tatuagens se estenderem por seus braços e se perderem nas mangas da sua camiseta preta, enquanto conversa ao celular. Eu sei que ele é bonito demais para ser real e que eu não deveria encará-lo tão intensamente, mas não consigo evitar de admirá-lo.
Estou cada vez mais perto do seu carro e o barulho do meu sapato chocando contra o asfalto é o único som audível, além da sua voz rouca retinindo em meus ouvidos como música clássica.
“Eu te ligo mais tarde, Tom” desliga a chamada quando eu chego ao seu lado.
"Oi!" a voz que tem me atormentado algumas semanas atrás é impossível de não ser reconhecida.
Harry está em pé ao meu lado, enquanto suas mãos entram nos bolsos frontais do seu casaco preto e seus lábios se movem em um sorriso perfeitamente alinhado. Eu acho que esqueci como se respira e estou tão nervosa quanto estaria para apresentar um trabalho oralmente, eles geralmente me causam náuseas.
"Como você está, perdida?" pergunta em um tom divertido e eu não tenho como não rir.
"Estou bem, e você, roadie, como está?" respondo com a voz carregada de escárnio, tentando, ao máximo, enfatizar a palavra roadie para que ele saiba que eu descobri sua mentira suja. Seus olhos verdes me analisam, como se estivessem me lendo sem restrição alguma.
“Você descobriu” afirma sem ânimo e eu escoro meu corpo em seu carro em um suspiro. Ele acompanha milimetricamente cada movimento meu.
“Fotos minhas estavam expostas nas revistas e em alguns sites de fofocas. Felizmente, nenhuma delas revelou meu rosto” Harry abre a boca e fecha, sem saber o que responder “Mas está tudo bem agora” não quero prolongar o assunto.
“Desculpe-me por mentir dessa forma” suspira e tira do bolso meu colar e eu fico muito feliz em vê-lo novamente depois de ter acreditado que o perdi. A luz do poste acima de nós reflete no ouro maciço do colar quando ele estende a mão para me mostrar.
“Eu não fazia ideia que seu colar estava no chão do meu carro, até entrar hoje depois do ensaio. Lembrei de ver você usando ele na boate” ele não tinha a intenção de ligar. Só o fez porque encontrou meu eu colar no chão do carro. Não sei se me sinto mais decepcionada do que feliz.
“Ele está na família há anos. Não me perdoaria se algo acontecesse” Harry sorri com minha resposta, de maneira pouco pura, exibindo as covinhas de cada lado da sua bochecha.
“Que bom que eu o encontrei, então” Harry me vira de costas e coloca meus cabelos de lado. Suas mãos calejadas tangenciam meu pescoço, enquanto ele coloca o colar onde ele nunca deveria ter saído. O contato rápido e macio faz meu corpo inteiro se arrepiar.
“Obrigada” Harry balança a cabeça e sorri de lado, enquanto me encara. Quando ele me olha assim, parece tão íntimo e visceral que eu tenho que olhar as horas no meu relógio de pulso para evitar o contato “Eu acho melhor ir agora.”
"Você está fugindo de mim, Cecília?" pergunta em um tom desconfiado, enquanto arqueia a sobrancelha e eu quase admito que sim. Não sei se ele queria me entregar apenas o colar ou se queria algo a mais. Sua inexpressão me deixa confusa "Você está brava por que eu não te liguei?"
"Quê?" aumento um pouco meu tom de voz "Não estou brava por isso, Harry" sei que apesar de parecer que não, estou dizendo a verdade "Eu não sei o que você está pensando agora, mas você não foi o único cara que passou por mim e não me ligou no dia seguinte."
"E então?" tenta me encorajar a continuar, enquanto, confuso, arqueia as sobrancelhas novamente.
"O fato de você mentir sobre quem realmente é. Não consigo entender o porquê de ter feito isso" dizendo em voz alta, parece pouco e banal, mas há algo mais aliviado em meu peito. Estou feliz que eu estou dizendo o que sinto, normalmente reprimo tudo dentro de mim da pior forma possível "Além disso, eu saí na capa de uma revista. Tem noção de como isso poderia ter atrapalhado meus estudos se meu rosto fosse exposto?"
"Eu não sabia, Ceci" fala um pouco mais baixo, como se estivesse sussurrando e solta a respiração "Eu sabia que você não era como as outras garotas, porque você passou ao meu lado e não gritou, nem tentou sensualizar pra mim. Você sequer me olhou. Era como se eu não estivesse lá e isso me deixou maluco. Eu sentia que poderia ser alguém comum se você não soubesse minha vida inteira ou da minha existência. Não queria que você tivesse uma visão de cantor sobre mim. Naquela noite com você, eu queria que você me visse como um cara normal. Como eu realmente sou.”
"Estou mais aliviada agora que passou" suspiro alto, enquanto arrumo a mecha do cabelo que cai sobre meu rosto. Suas palavras me deixam mais confusa "As pessoas já esqueceram e ninguém viu meu rosto."
“Você é a primeira garota que conheço que não quer ser vista publicamente comigo” Harry sorri adoravelmente, tentando quebrar o clima estranho que satura todo o ambiente “Isso é golpe baixo contra meu ego.”
“Desculpe por ser a primeira a quebrar seu ego, mas eu tenho meus próprios princípios” ironizo e ele alarga seu sorriso.
"Eu não liguei, porque não estou acostumado com isso" assinto, mas eu sabia desde que li nossa matéria que ele não iria ligar. Ele não é o cara diferente que eu sonhei encontrar em Londres durante minha faculdade. Ele é o cantor de uma banda mundialmente famosa e isso não parece tão bom.
"Eu entendo que você tem coisas mais importantes para se preocupar, como arrumar seu cabelo corretamente ou que roupa vestir e qual dos vinhos mais caros você tem na adega hoje" ironizo e ele sorri.
“Você tem uma visão muito errada sobre mim se acha que eu ficaria horas no espelho para arrumar o cabelo, sendo que o ideal é deixá-lo bagunçado ou que eu prefiro vinho que uísque ou vodka.”
“E a coleção de carros você não pode negar” afirmo e ele me olha com as sobrancelhas levemente arqueadas.
“Essa eu não tenho como negar” encena um rosto entristecido “Mas, para minha defesa, eu sou realmente apaixonado por carros.”
“Isso não é algo à seu favor, você sabe” ele sorri mais uma vez “Você pode me contar sobre seu feitiche em ostentar os carros. Eu não vou espalhar isso pelo mundo afora.”
"Que tal deixar meu feitiche por ‘ostentar carros’ de lado e dar uma volta comigo?" arqueia as sobrancelhas e me olha como uma criança pedindo doce.
"Não me parece uma boa ideia" Harry parece surpreso com minha resposta, mas eu não quero problema com paparazzis como da última vez ”Você não acha que teria paparazzis demais impedindo nossa volta?"
"Na verdade, não. O lugar é calmo e é raro ir alguém por lá. Tome isso como um pedido de desculpas" a ideia me parece perigosa, por isso é tão tentadora.
"Tem certeza?" ele tira o braço que estava escorado em seu carro, abrindo a porta de carona.
"Você está preparada para a melhor noite da sua vida?" gargalho com sua declaração e assinto com a cabeça. Harry sorri vitorioso e passa por trás do carro, abrindo a porta do motorista e sentando-se no banco.
“Qual seu estilo musical favorito?” Harry pergunta, ligando o som do carro “Você não me parece gostar muito de pop, especialmente One Direction” sorri.
Em seu carro está quente e seu cheiro está impregnado em cada canto. Suas mãos se movem, enquanto ele está concentrado no caminho que se estende à nossa frente. Vejo seus olhos através do retrovisor e várias tatuagens no braço ao meu lado, enquanto ele segura o volante.
“Não é meu estilo favorito” afirmo “Também não tinha parado para escutar suas músicas. Desde que entrei na faculdade, não tenho muito tempo livre.”
“Qual sua banda ou cantor favorito?” arqueia a sobrancelha de maneira curiosa e me olha por alguns segundos, antes de voltar sua atenção para a estrada à sua frente.
“Beatles, sem dúvidas.”
“Deixe-me adivinhar. Sua música favorita seria ‘Hey Jude’?”
“Errou feio, Harry Styles” cruzo os braços abaixo do peito “Ask Me Why, sem dúvidas.”
“Você é demais, garota!” exclama rindo.
“Minha avó e eu costumávamos escutar todas as músicas de Elvis, mas Ask Me Why era a única música que não era de Elvis, mas estava entre as nossas favoritas.”
“Isso me diz mais sobre você do que realmente deveria. Eu te imagino numa cozinha, cantando Ask me Why num volume alto e com meias de bolinhas coloridas, enquanto dança” não consigo segurar a risada.
“Tirando o fato de dançar, todas as outras partes são verdadeiras” Harry sorri, estacionando o carro.
“Então, garota perdida que escuta Ask me Why nas alturas com meias de bolinhas, temos um longo caminho a percorrer.”
“Se tivesse me avisado mais cedo, eu colocaria sapatos de corrida” ironizo e ele sorri, começando a nos guiar por um caminho arborizado e completamente vazio de paralelos.
Cinco minutos de caminhada nos levam para a frente de uma ponte de madeira. Um pequeno riacho corre abaixo de nós e o barulho da água correndo é reconfortante e traz uma calma indescritível.
Olhando para a frente, consigo ver toda a cidade iluminada daqui de tão longe e é tão bonita. Harry senta-se entre as duas ripas de madeira que ajudam a sustentar a ponte e eu me sento ao seu lado.
O frio me abraça da mesma forma que abraçou quando saí de casa e o vento balança meus cabelos rebeldes, jogando algumas mechas em meu rosto. Coloco-os de lado, impedindo de chicotear em meu rosto e atrapalhar a visão extraordinária que estou tendo.
O silêncio entre Harry e eu é tão confortável que não quero quebrar. Vou considerar voltar mais vezes sozinha, é um ótimo lugar para pensar e esfriar a cabeça. Não há indícios de carro e pessoas em nenhuma direção. O lugar é tão calmo que é possível acampar por perto.
"Gostou?" assinto com a cabeça e escoro as costas na grade "Quando eu fico em Londres depois dos shows ou ensaios, costumo vir aqui. Gosto da calmaria que as luzes refletidas na água me proporcionam."
Observo-o tirar o casaco e colocar em meus ombros quando percebe que estou com frio. Tento ignorar tudo o que nos ronda e presto atenção na água se movendo sorrateiramente abaixo de nós.
"Harry" chamo-o e ele desvia sua atenção a mim. Seus olhos estão brilhando devido as luzes e ficam mais bonitos que o habitual "Como é ser cantor?"
"Bem... É o que eu sempre quis e eu amo o que eu faço, mesmo com todo o cansaço e todos os problemas que me acarretam como paparazzi enxeridos" rimos juntos "E interesses de pessoas próximas a pessoas não tão próximas".
"Dever se difícil pra você..." franze o cenho "Lidar com tudo isso".
"Eu já acostumei" sorri de lado e passa a mão em seu cabelo, o jogando pra trás “Você já foi em algum show?”
“Não” afirmo e seus olhos se arregalam surpresos
“Você tem que ir a um show da banda, Ceci! Onde você ficou presa por tanto tempo?” arqueia as sobrancelhas.
“Bem, eu…” Harry me interrompe.
“Não importa. Você é minha convidada especial para o show de Londres na semana que vem.”
O som do seu celular tocando quebra o silêncio que se instala. Ele não demora a perceber também, pois pega seu celular e olha o visor.
"Não vai atender?" ele nega e suspira, mas alguns segundos depois seu celular volta a tocar e ele o ignora, deixando a melodia soar ao nosso lado "Deve ser algo importante, caso contrário não insistiria tanto"
Ele pega o celular e o coloca no ouvido.
"Oi, Jim" pausa "Eu acabei de sair, cara" "Eu não vou demorar, pai!” ironiza “Daqui meia hora eu volto" diz, por fim, e desliga o celular.
"Ele parece ser um cara bem responsável" tento quebrar o clima estranho.
"Ele é o empresário da banda, ou seja, ele tem que ser responsável por nós cinco, mas isso não quer dizer que você tenha que usar palavras bonitas para descrever o quão chato ele é" sorri e se levanta "Mas isso é só porque ele é preocupado com o pessoal da banda ou com o dinheiro que a gente traz pra ele."
"Isso não o faz deixar de ser responsável" ele concorda e abaixa, dando a mão para me ajudar a levantar também.
"Certo. Mas responsabilidade em demasia é sinônimo de chato e monótono. As coisas têm que sair da linha um pouco, caso contrário, elas se tornam chatas.”
Ele me guia até o carro e abre a porta pra mim, entrando nele sem seguida. Seus olhos pousam em mim e nas chaves do carro em suas mãos.
“Falando dessa forma, você parece um adolescente inconsequente” Harry sorri.
“Se adolescente inconsequente significar diversão, então, sim, eu sou” fala, enquanto coloca ‘Shine On You Crazy Diamond’ para tocar no carro “As regras são feitas para serem quebradas.”
Escuto um trovão soar e me encolho no banco. Espero que o temporal não chegue antes de chegarmos em casa.
Movo minha mão para aumentar o som, mas algo macio choca contra ela, me fazendo ficar estática. Nossas mãos estão se tocando e ele acaba ligando o som, mas não tira a mão. Nem eu. Seu rosto se vira em minha direção e sua atenção oscila entre meus olhos e minha boca. Os primeiros acordes da música começam a soar por todo o carro.
"Eu acho que Jim pode esperar um pouco" sua fala está carregada de malícia, enquanto seu sorriso de lado se abre.
Harry está cada vez mais perto. Há algo em seus olhos que me fazem ficar estática como nunca estive. Talvez seja a intensidade que eles estão exercendo sobre mim neste momento.
Então ele quebra toda a distância que nos separa, puxando meu rosto, de modo que nossas bocas se juntem. Uma eletricidade anormal se acende em todo meu corpo quando sua língua macia desliza em meu lábio inferior de forma lenta e deliciosa.
Seu gosto é de morango adocicado devido ao chiclete que estava mascando e seu cheiro é a junção deliciosa de loção pós barba, sabonete e perfume almiscarado. Suas mãos correm por minha coxa, por cima do jeans grosso da calça, enquanto meu corpo entra em combustão.
Minhas mãos puxam seu cabelo e, com uma necessidade de tê-lo mais perto, assim como ele estava, suas mãos pousam em minha cintura, me guiando até seu colo, depois voltam a alisar minha coxa.
O carro parece estar em chamas também, pois sinto a temperatura dele aumentar drasticamente, fazendo-me tirar o casaco de Harry dos meus ombros, enquanto ele me ajuda a puxar o casaco para baixo atrapalhadamente.
Harry encosta sua testa na minha quando paramos o beijo. Seus lábios estão vermelhos e pouco inchados. Quero muito mais que amassos dentro do carro e ele parece querer a mesma coisa, mas seu celular volta a tocar com o nome "Jim" piscando na tela várias vezes, impedindo-nos de continuar. Ele desliza o botão vermelho e me puxa novamente para outro beijo tão intenso quando o primeiro, mas a pessoa é insistente e volta ligar. A simbiose neste momento já não é mais a mesma.
"Acho melhor você atender" peço e ele o faz.
"Oi, Jim" Harry resmunga com a respiração entrecortada e os dois discutem um pouco pelo celular, enquanto saio do seu colo.
Minhas pernas estão bambas, as batidas do meu coração estão frenéticas e meu corpo parece entrar em overdose. Consigo ver o peito de Harry subir e descer em um ritmo moderado, diferente de mim.
A sensação de euforia, que parece efêmera, ainda continua em cada poro meu corpo e isso me deixa confusa. Quando Harry desliga o celular, ele o coloca em seu bolso frontal e suspira.
"Podemos ir?" pergunto e ele assente.
O carro já não está tão quente como minutos atrás e agora já consigo respirar melhor. Harry para o carro em frente ao meu apartamento. Antes de descer do carro, beijo sua bochecha, agradeço a noite agradável e me despeço.


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