Todas as quintas à noite, Hannah, Matt e eu assistimos diversos filmes.
Alguns meses depois que nos mudamos para o mesmo prédio, os filmes uma vez por semana viraram tradição e raramente a quebramos. Hoje é a minha vez de escolher o filme. Estava escolhendo um da minha grande lista quando Matt começou a insistir para que eu escolhesse “Clube da Luta”, ou seja, ele acabou escolhendo o filme por mim.
Hannah dormiu no momento em que as cenas finais do filme iluminavam precariamente a sala de estar, deixando-nos à penumbra. Provavelmente passou das doze da noite e há pipoca por todo lado da sala, desde o tapete felpudo até o pequeno sofá no canto, onde Hannah está deitada. A mesa de centro não se encontra mais no local, porque achamos preferível tirá-la do lugar como todas as outras vezes e o tapete está desordenado. Sinto como se tivesse dado uma festa com direito à bebida e música alta. No entanto, a situação, que era para ser calma, se tornou meio drástica. Apesar de aparentar ser o contrário, a bagunça não é uma coisa que fazemos com frequência.
Matt, nosso melhor amigo, foi embora há algumas horas atrás, ficando apenas Hannah, eu e o meio do segundo filme. Geralmente, Matt voltava para seu apartamento ao lado de madrugada, mas algumas vezes, quando o sono o dominava, ele acabava dormindo no sofá, exatamente como Hannah está agora. Hoje, no entanto, ele teve um encontro marcado e não podia se atrasar. No final, ficou tão focado no filme que acabou atrasando alguns minutos, mas Hannah e eu estamos torcendo por ele. Matthew é um cara legal, atencioso e charmoso. Tenho certeza que Emma perdoará os quinze minutos de atraso.
Estou quase dormindo no sofá. Meus olhos não estão conseguindo ficar abertos por muito tempo e o quarto parece mais distante agora, mas quando meu celular vibra com uma mensagem nova, eu fico mais desperta para ver. Não consigo evitar a feição de surpresa ao ver o nome de Harry aparecer na tela. Sugo uma enorme lufada de ar e qualquer indício de sono que tinha em meu corpo, evaporou por completo.
Não hesito em abrir a mensagem rapidamente. Não sei o motivo de Harry me mandar mensagem nesse horário, mas qualquer mensagem que seja, não consigo evitar de ficar nervosa e ansiosa.
"Boa noite, Perdida!
Aqui é o Harry, aquele cantor que prometeu uma ligação ou aquele idiota com quem você esteve semana passada. A escolha é sua (mas, por favor, ignore e descarte a segunda opção).
Estarei em Londres no final de semana para o melhor show da sua vida. Como prometido, passei o seu nome para meus seguranças e passarei as informações com antecedência.
Espero ansiosamente para revê-la, linda."
Por um momento na ponte achei que ele tinha me convidado de modo evasivo e não se lembraria depois. No entanto, estou cada vez mais surpresa com suas atitudes inestimáveis. Eu idealizei Harry como uma figura padrão, mas eu sinto, bem lá no fundo, que ele é muito mais que uma voz e rosto bonitos.
Meu coração vibra em ansiedade, mas não tenho certeza se quero estar lá e a dúvida me corrói. Meu estado de limbo atinge o ápice. Por esse motivo, não respondo de imediato e me viro no sofá a noite inteira procurando posições confortáveis.
Ir a um show parece legal, mas ir ao show do Harry, às vezes, parece incogitável. Tenho medo de estar em sites, revistas de fofocas mais uma vez e ser reconhecida. Atrapalharia muito minha vida acadêmica e eu me odiaria se algo acontecesse. Eu enfrentei tantas coisas para estar onde estou e eu não trocaria isso por alguns minutos ou anos de fama. Ninguém imagina o quanto eu tive que lutar para chegar onde estou agora e o quão independente eu precisei ser desde que deixei o ensino médio.
Estou tão eufórica que é impossível pregar os olhos e não reler a mensagem mais uma vez, só pra ter certeza que não é irreal ou minha imaginação fértil criando coisas absurdas, mas acabo adormecendo com o celular ligado na mensagem que ele me enviou.
…
Acordo com o som irritante do alarme do meu celular e me sinto cansada como nunca estive. Parece que uma manada de elefantes pisoteou em minhas costas e eu sei que é o resultado de dormir no sofá desconfortável.
Hannah ainda está dormindo e parece não escutar o som do alarme, embora o som seja tão alto que até os vizinhos podem acordar com o barulho. Seus cabelos estão jogados em seu rosto, dificultando a visão que tenho dele. Ela parece um pouco desconfortável no sofá e não tenho dúvidas de que acordará com dores no pescoço e nas costas, tal como eu.
“Hannah” toco em seu ombro, mas ela apenas afasta minha mão e vira para o lado oposto “Hannah, você vai se atrasar” falo mais alto e balanço seus ombros para frente e para trás.
Hannah acorda assustada e senta no sofá rapidamente com os olhos arregalados.
“O que aconteceu?” fala alto, tirando a coberta das suas pernas.
“Você vai se atrasar” respondo e ela se levanta do sofá resmungando de dores no pescoço e principalmente por ter sido acordada cedo. Seu rosto está amassado e seus olhos vermelhos.
“Você não poderia ser um pouco mais delicada?" pergunta, revirando os olhos.
“Você não acordaria nem se estivesse acontecendo a terceira guerra mundial” respondo.
Caminho até o banheiro, desviando de algumas pipocas e da bagunça pelo caminho. Lavo meu rosto com a água gelada da pia do banheiro para me despertar. A água fria me traz lembranças em um lampejo.
A mensagem de Harry está gravada em minha mente devido a quantidade de vezes que eu a li, mas tenho que abrir, mais uma vez, somente para ter certeza que não foi um sonho irreal. Eu não estou sonhando. A mensagem ainda continua da mesma forma; clara, objetiva e sem nenhuma resposta.
Quando saio do banheiro, resolvo começar a arrumar a casa, antes de ir para a universidade. Consigo pensar melhor quando estou fazendo alguma coisa que me ajuda a clarear meus pensamentos.
Hannah aparece alguns minutos depois, ainda de pijama listrado e me encara preguiçosamente.
"Só de olhar essa bagunça, eu tenho vontade de chorar" enruga o nariz e começa a me ajudar silenciosamente.
Há uma lista de coisas que quero fazer em Londres e algumas delas já foram cumpridas ao decorrer dos anos em que estive aqui. Me permitir ir a um show grande era um item não muito importante dela. Quase em último lugar, porque não era uma opção muito desejável até agora. Eu só queria conhecer e sentir as sensações que minha avó falou que eram boas demais para serem descritas.
Minha avó foi em incontáveis shows do Elvis Presley. Ela guardava a memória de todos eles e me contou o último detalhadamente, desde o momento em que ele entrou no palco até o momento em que ele se despediu e saiu do palco. Antes de morrer, ela me contou que se ele ainda estivesse vivo, ela estaria indo aos seus shows.
Meu avô nunca gostou muito de Elvis, mas ele sempre levava minha avó para os shows dele. Ele gostava de vê-la feliz e ir ao show de Elvis deixava ela muito feliz. Depois que ela se foi, ele colocava Elvis todos os dias para tocar em seu antigo som de fita K7. Apesar dele não gostar, a música de Elvis matava um pouco da saudade que ele ainda sente da minha avó.
“... então eu disse a ele que ele deveria ir, porque oportunidades como essa não caem do céu dessa forma” Hannah fala e eu balanço a cabeça algumas vezes.
“O quê?” pergunto, parando de varrer o chão e ela me olha, sabendo que não escutei nada do que ela tinha falado.
"Matthew me disse ontem que não sabe se quer trabalhar para Jordan” explica “Eu conversei com ele e tentei fazer ele perceber que é uma oportunidade única.”
“Oportunidade única?” pergunto.
“Sim” responde “Você deveria conversar com ele também, porque você é a única pessoa que ele escuta.”
“Eu vou tentar” respondo, voltando a varrer a casa e solto um suspiro alto.
Acompanhei Harry por um tempo em jornais, revistas e televisão quando me sobrava tempo e a verdade é que ele sai com mulheres diferentes a cada final de semana e eu não quero ser só mais uma. Além disso, há várias reportagens com ele bêbado falando bobagens para os paparazzi. Sua reputação nos sites é apavorante e seu estilo de vida boêmio é tão distante do meu. Eu não sei o porquê de ainda fantasiar e pensar na possibilidade de algo existir entre nós.
Quando estávamos conversando na ponte, Harry não parecia tão intocável e inatingível quanto parece nos sites de fofoca e na televisão. Ele era um cara legal que eu adoraria manter por perto como um ótimo amigo.
O som da campainha tocando me desfaz dos meus pensamentos e eu caminho até a porta para atender. Matt está parado atrás da porta com algumas sacolas da cafeteria do outro lado da rua em mãos e um sorriso enorme nos lábios.
"Bom dia!" ele fala e eu pego duas das sacolas das suas mãos.
"Pensou que iria se livrar da faxina depois da bagunça de ontem, não é?" Matt sorri adoravelmente e sei que ele está pensando em inventar alguma desculpa esfarrapada para fugir.
"Merda! Achei que já tinham acabado" escora no batente da porta com o braço, revelando um pedaço da sua barriga e o final da sua tatuagem "Posso voltar outra hora, no entanto."
"Não mesmo" antes que ele dê meia volta, o puxo pela mão e fecho a porta.
Matt e Hannah conversam sobre a oportunidade de emprego que Jordan deu a ele e eu respiro profundamente, inalando toda coragem e determinação possível para pegar meu celular e aceitar o convite. Então, em um impulso, eu tiro o celular do bolso e digito:
"Que surpresa, idiota com quem estive semana passada! Parece uma piada a forma como você acha que eu preciso de descrições evasivas para me lembrar de você.
Aceito seu convite e aguardo as informações ansiosamente."
Oioioi, lindas flores do meu jardim! Como estão?


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