Para mim, chegar cedo às aulas e sentar na primeira cadeira da frente, além de manter ótimas notas, sempre foram metas essenciais desde que iniciei a faculdade de arquitetura. Vinte minutos de atraso no meu último semestre, no entanto, quebra pela terceira vez o paradigma que estipulei de chegar cedo às aulas.
Não pude deixar de notar as olheiras mais fortes que o comum e sono acumulado quando encarei meu reflexo no espelho do banheiro, após acordar e perceber que o despertador do meu celular simplesmente me deixou na mão quando eu mais necessitava. Agora, assistindo a última aula do dia, sinto que irei dormir a qualquer momento. Apesar dos trabalhos da Universidade me deixarem constantemente exausta e acordada a noite inteira, sinto que estou dez vezes pior que passar a noite em claro estudando.
O tique taque do relógio parece soar em câmera lenta, junto à fala arrastada do professor. As cadeiras, hoje organizadas em um grande círculo, estão ocupando os cantos da sala, deixando o meio para que Sr. Lewis explique o assunto de uma forma dinâmica e ‘divertida’, como alegou antes de ordenar.
Minhas costas estão doendo pelo tempo interminável que fiquei sentada à espera das aulas acabarem e minha cabeça parece explodir, não apenas em dor, mas também em acúmulo de pensamentos. Não deveria ter cogitado a ideia de sair de casa noite anterior, porque hoje sinto o cansaço de uma noite mal dormida. Hannah sempre consegue ser persuasiva quando quer.
Apesar da persuasão compulsiva, Hannah me compreende como ninguém e sempre fala o que eu necessito ouvir. Somos o oposto uma da outra e isso não há como negar ou esconder, no entanto, com todas as inúmeras contradições, nos damos muito bem e é por isso que estamos morando juntas até hoje. Ela me ajudou quando eu mais precisava e não tinha ninguém. Ela esteve comigo quando Wally me deixou da pior maneira possível, um fardo que eu tive que carregar durante meses, e quando minha avó faleceu.
O som do sinal tocando se faz audível em todas as salas, fazendo-me soltar um suspiro de alívio. Levanto-me rapidamente da cadeira desconfortável, fazendo-a arrastar para trás e coloco todo material dentro da mochila preta e surrada do segundo ano de uso.
Há poucas pessoas na sala quando termino de guardar meu material e as que restam estão a caminho da porta. O professor ainda está arrumando a mesa onde suas coisas estão e, quando percebe que estou a caminho da porta, me chama:
"Você pode vir aqui um minuto, Rowan?" seus óculos insistem em escorregar pelo nariz, mas ele volta a empurrá-los, colocando-os no lugar sempre que isso acontece.
Coloco a mochila nas costas e caminho até a mesa onde Steve está sentado. Ele ainda está guardando as folhas da atividade que sobraram da maneira mais lenta possível, como se o tempo curto fosse o menor dos seus problemas.
"Precisa de ajuda?" pergunto, mas não espero ele responder para começar a juntar as folhas espalhadas pela mesa.
Ele começa a pegar os livros extremamente pesados em cima da mesa e colocá-los na mala. Olhando-o de perto, percebo que seus cabelos estão começando a ficar grisalhos, apesar de ainda carrega a aparência jovial.
“Obrigado, mas não é necessário” assinto e deixo os papéis em cima da mesa, recuando alguns centímetros para trás "Você é a minha melhor aluna, Rowan. Eu, como seu professor, deixei isso bem claro inúmeras vezes durante minhas aulas, mas hoje não sei o que aconteceu com você. Pareceu-me um pouco dispersa e isso é um ponto negativo" suas mãos insistem em mexer em sua barba por fazer e seu olhar cai em mim completamente preocupado. Eu não o culpo, porque eu mal consegui prestar atenção em sua aula. Pela primeira vez na faculdade, meus pensamentos estavam em outras dimensões "Não quero me envolver em sua vida pessoal, então peço para que revise o assunto que passei quantas vezes for necessário e evite distrações desnecessárias" assinto constrangida. É a primeira vez que Steve chama minha atenção em suas aulas. Ele é conhecido por chamar a atenção dos alunos quando necessário e eu nunca imaginei que algum dia seria minha vez. Os professores da faculdade não costumam fazer isso. Steve é a exceção.
"Estou com alguns problemas pessoais, mas prometo melhorar amanhã" Steve assente e termina de arrumar os papéis em sua mochila.
“É seu último semestre, Cecília. Estou esperando muito de você” engulo em seco e quase respondo que eu também espero e cobro muito de mim. Sempre. Mas eu não falo, nem mesmo o quão exaustivo isso é.
“Obrigada, Steve!” nos despedimos e eu caminho para o ponto de ônibus. Por causa de alguns segundos, quase o perco. Estou totalmente esgotada e eu sabia que isso era uma possibilidade de acontecer quando aceitei sair com Hannah ontem.
Quando abro a porta do apartamento, jogo a mochila no sofá e caminho até a cozinha. Hannah está com um copo de água em mãos e quase engasga ao me ver. Seus olhos caem de mim para a mesa, e no mesmo instante deixa o copo quase cheio de lado.
"Caramba, Cecília!" exclama preocupada "Te liguei um milhão de vezes e você simplesmente não me atendeu."
"Estava na faculdade. Você sabe que eu não podia atender" Hannah pega a revista que está em cima da mesa e me entrega.
"Reconhece essas duas pessoas que estão na capa?" pergunta e meus olhos arregalam em surpresa. Há uma foto minha de mãos dadas com Harry em um círculo quase grande. Uma das minhas mãos está sobre meu rosto, mas ainda consigo ver a roupa e os saltos que Hannah me emprestou ontem.
Sento-me na cadeira e Hannah segue meu ato, sentando-se ao meu lado. Ela parece tão surpresa quanto eu. Um bilhão de sentimentos caem em mim no momento e eu não sei qual deles é o mais devastador.
"O que é isso?" pergunto, ainda em choque e é a única coisa que consigo falar no momento, embora queria jorrar milhões de perguntas, mesmo estando ciente que ela não conseguirá respondê-las. Hannah está tão confusa quanto eu.
"Você não viu ainda a parte melhor. Abra na página 10" mal espero ela acabar de falar e abro a página. Agora a foto está maior, mais nítida e retangular. Há várias pessoas ao nosso redor com câmeras fotográficas, celulares e garotas com a boca aberta, provavelmente gritando e/ou sorrindo. Há cartazes nas mãos de algumas delas com o nome Harry Styles com letras enormes, frases escritas e alguns com fotos dele espalhadas.
"Não consigo acreditar que isso está acontecendo" o nervosismo toma conta de mim e minha preocupação com a faculdade aumenta drasticamente "Mas também não consigo entender. Achei que um roadie não seria tão famoso" estou confusa, nervosa e um pouco furiosa. Não queria estar em revistas, sites ou qualquer outra coisa relacionada, mas olha onde estou agora; na capa de uma revista, roubando uma página inteira. Não consigo parar de pensar no quão inacreditável a situação se tornou.
"Eu sugiro que você leia o que está escrito ao lado" suas palavras soam tão estranhas quando sua vida é mais pacata que qualquer coisa e as únicas fotos que algumas pessoas podem ver é em seu instagram privado.
"Harry Styles sai da boate com mais uma garota desconhecida, onde comemorava com a banda o novo álbum lançado" leio o título em voz alta. Hannah me encara e o copo já está de volta em sua mão. Agora ela parece menos preocupada, mas eu não consigo não ficar.
"Continua" ela pede e eu assinto. Não quero continuar, pois só de olhar nossas mãos entrelaçadas meu estômago revira. Parece tão íntimo que tenho vontade de fechar a página e fingir que nada disso aconteceu. Fingir que tudo isso foi apenas um sonho fora da realidade.
"O cantor foi visto na noite anterior" pauso assustada quando as palavras ressoam de forma alta em meus ouvidos "Ele é um cantor?" pergunto em voz baixa e arqueio a sobrancelha em confusão.
"Aparentemente sim" uma de suas mãos passa em meu cabelo, tentando, inutilmente, me acalmar “Pensa no lado positivo, Ceci. Não apareceu seu rosto.”
"Eu sei, Hannah, mas eu estou confusa. Ele disse que era um roadie, e não que era o cantor de uma banda famosa" suspiro e fecho os olhos, completamente derrotada. Falar em voz alta soa ainda mais irreal que em pensamentos.
"Sinto muito, mas acho que ele não vai poder tirá-la da revista."
Sei que ela está certa, mas a situação é um pouco assustadora. Agora não consigo parar de ler a mesma página e acabo perdendo a conta de quantas vezes acabei relendo. Outra parte de mim está decepcionada por ele ter mentido dessa forma. Não consigo imaginar Harry cantando em um palco. Então, só por via das dúvidas, quando estou sozinha em meu quarto, pesquiso seu nome na internet.
"Harry Styles é um cantor, compositor e ator inglês. Styles ganhou fama mundial como membro da banda de pop rock britânica One Direction."
Droga. Quase grito. É completamente inacreditável. Meu corpo inteiro treme e eu começo a escolher uma música aleatória da banda chamada "Whats Makes You Beautiful". Sua voz é rouca e terrivelmente linda. Estou tão admirada e surpresa que me perco ouvindo sua voz no refrão da música.
Reconheço Liam, o moreno que apareceu na boate ao meu lado no clipe. Ele está tão bonito quanto na noite anterior e eu não consigo não ficar surpresa. Dois famosos em uma só noite e eu não consigo parar de repetir o quão inacreditável a situação se tornou.
Completamente anestesiada e temendo que o mundo real me empurre de volta a realidade cruel, fecho os olhos, apreciando minuciosamente a música. Sua voz é tão sexy, fazendo jus à imagem na qual carrego tentadoramente em pensamentos. Não esperava nada menos que isso.
Escuto a porta abrir e a cabeça de Hannah aparece. Seus cabelos estão presos em um coque no alto da cabeça e em seu corpo há uma blusa enorme de uma banda de rock do seu ex-namorado. É a sua camisa favorita para dormir.
"Posso entrar?" assinto e ela o faz, fechando a porta em seguida. Ela analisa a tela do notebook e encara os garotos na tela, escutando atentamente a música.
"Eles não são tão maus" senta em minha cama e eu deito em seu colo, deixando a música rolar "Essa música é a que mais toca nas rádios desde o mês passado. Como não desconfiei?” sua boca se fecha em uma linha fina.
“Você anda com tempo suficiente para pesquisar sobre boybands no último semestre da faculdade?” arqueio a sobrancelha.
“Não faço isso desde que me formei no ensino médio” gargalha alto e se joga na cama “Ele ainda não deu sinal de vida?" nego e ela suspira, como se estivesse decepcionada.
No fundo, não estava esperando uma mensagem ou ligação. Harry não parece alguém que manda mensagem ou ligação no dia seguinte. O pequeno fio de esperança que tinha foi empurrado abruptamente quando descobri que ele era o cantor, não o roadie da banda.
"Onde está seu colar?" Hannah pergunta, olhando fixamente para meu pescoço. Ergo as sobrancelhas e passo a mão em meu pescoço, temendo ser uma brincadeira de mau gosto. No entanto, sinto apenas o vazio e me assusto.
"Você tem certeza de que ele não está aqui?" pergunto, apesar de estar constatando o óbvio e sinto meu corpo inteiro gelar. Caminho até o espelho e vejo a pele nua do meu pescoço “Foi a única coisa que minha avó me deixou, Hannah” falo, completamente desesperada “Eu preciso encontrá-lo.”
Caminho ao redor do quarto, começando a procurar todos os cantos. Hannah se levanta da cama e me ajuda a procurar também.
O colar tem um significado enorme para mim. Antes de morrer, minha avó tirou do pescoço e me deu. Disse que ele era importante para a família e que eu deveria cuidar dele com o maior cuidado possível. Ela colocou nas minhas mãos e me falou das gerações em que ele passou e em como ele era especial para ela e para sua família. Então ela simplesmente me escolheu e confiou cegamente em mim. Não escolheu minha mãe, muito menos uma das minhas irmãs. No entanto, estou sendo a primeira a decepcioná-la. Talvez, se ela tivesse escolhido Clara ou Clarisse, isso nunca teria acontecido.
Jogo meus lençóis no chão e procuro na penteadeira, no banheiro e depois nos outros cômodos. Hannah e eu procuramos por toda a casa, mas não o achamos. Em cada canto que eu procuro e vejo o vazio ao invés do colar, meu coração se aperta em desespero.
“E agora, Hannah?” sinto as lágrimas rolarem em minhas bochechas.
“Vamos refazer o caminho da faculdade. Talvez você perdeu por lá” ela tem razão e eu não hesito em caminhar até a garagem. Hannah tira seu carro da garagem, enquanto eu pego meu celular em cima da mesa e refazemos o caminho de casa para a faculdade, mas o percurso se torna em vão, porque ele não está lá.
“Sinto muito” Hannah diz ao fim da busca pelo colar. Mesmo que eu compre outro parecido, será insubstituível. Ela confiou em mim e eu, infelizmente, a decepcionei.
Em um sussurro trêmulo, peço desculpas para minha avó, porque, por hora, é a única coisa que posso fazer para me deixar menos infeliz.
Oioi, meus lindos raios de sol! Como vocês estão?
Espero muuuito que bem e que tenham gostado do capítulo novo
I love u all, L szszs.


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