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Capítulo 07 | Famous

em 09/03/2021 |


 O toque desconhecido e insistente de um celular me faz resmungar sonolenta e acordar assustada, no entanto, não consigo me mover do lugar.

Sinto algo se mover sorrateiramente abaixo de mim e a voz rouca de Harry começa a soar como música pela manhã em meus ouvidos. Não consigo distinguir algumas palavras e mal consigo pensar claramente nos primeiros minutos que seguem. Por algum motivo, ainda sinto que estou em um sono profundo, mesmo estando ciente de que já acordei.

“Estou indo” ele responde com a voz embargada de sono.

Agora, pensando mais claramente, pergunto-me como vou embora sem que ninguém consiga me ver na caminhada longa até o portão. Provavelmente devo passar por uns dez empregados, considerando a dimensão da casa, ou pelo menos por um dos amigos do Harry. Pensando melhor, eu deveria ter voltado ontem para casa ao invés de ter deixado meu cansaço ganhar.

A noite anterior foi maravilhosa e, por mais que minha vontade grita querendo repetir tudo por toda a eternidade, eu não posso sequer pensar na possibilidade de me envolver. Não com Harry. Infelizmente, quando estamos juntos, não tenho muito controle sobre mim e eu me sinto fugir da realidade em alguns momentos.

Escuto a porta ser fechada lentamente, provavelmente para não me acordar, então tomo a liberdade de abrir os olhos e suspirar alto. O quarto está totalmente escuro por causa das janelas e cortinas fechadas, o que faz com que eu não consiga distinguir as horas. Os lençóis macios parecem seda abaixo de mim e o cheiro de Harry está impregnado em cada canto da cama.

Não posso me dar o luxo de desfrutar mais alguns minutos da cama luxuosa e seus lençóis macios e cheirosos, porque Hannah provavelmente está surtando e eu preciso voltar para casa. Se pudesse, carregava a cama comigo em uma realidade bem distante. Nunca dormi em algo tão macio e, agora que provei, não quero me levantar.

Infelizmente, a realidade me empurra de um precipício, fazendo-me levantar em um sobressalto. Pego meu celular para ver as horas e constato que já passam das sete. Hanna me ligou vinte e duas vezes desde ontem à noite.

Tento desembaraçar algumas mechas dos meus cabelos com os dedos e desamassar um pouco das minhas roupas com as mãos, antes de caminhar até a porta branca. Se eu esbarrar com alguém pelo corredor, quero pelo menos estar um pouco apresentável, mas acho que isso não é nem uma opção nas condições em que me encontro agora.

Quando eu toco na maçaneta fria, Harry também o faz do outro lado da porta, abrindo-a abruptamente e fazendo-a chocar veemente contra minha testa. O impacto brutal faz o local doer e, provavelmente, criar um galo iminente com a força que foi exercida. Minha testa começa a latejar e eu levo instantaneamente minhas mãos até o ferimento, tentando amenizar um pouco da dor.

“Puta merda” resmungo alto.

“Cecília?” Harry pergunta, colocando rapidamente uma bandeja no chão do quarto. Quando ele se levanta e endireita sua postura, sua mão vai de encontro ao meu queixo e o segura com uma das mãos “Você se machucou?" pergunta, ostentando sua preocupação em demasia na oscilação do seu tom de voz, enquanto examina meu rosto por completo. Ele arqueia as sobrancelhas, formando linhas grossas em sua testa.

“O quê?” pergunto e abaixo uma das mãos. Se ele possivelmente ver o tamanho do inchaço que estou sentindo embaixo da palma da minha mão, vai me segurar aqui mais algumas horas “Não… Está tudo bem” afirmo, mas acho que a careta de dor formada em meu rosto e a leve oscilação em meu tom de voz dizem totalmente o contrário do que eu quero transparecer.

Harry toca meu cotovelo e abaixa delicadamente a mão que está na minha testa cobrindo qualquer resquício de ferimento e se assusta ao vê-lo.

“Céus, Cecília!” exclama “Isso está muito feio!”

“Se você me levar para casa, eu posso…” falo e ele nega com a cabeça no mesmo instante, como se a ideia fosse estúpida e incogitável.

“Por favor, deixe-me cuidar disso” fala e eu assinto com a cabeça, dando-me por vencida. Sei que, pela forma como ele falou e a preocupação transparente, o ferimento não está muito bonito “Coma algumas coisa, enquanto eu busco um gelo” afirma e me entrega a bandeja que trouxe consigo com um pequeno café da manhã.

O cheiro de café recém preparado em junção às torradas integrais fazem meu estômago revirar e eu sinto como se não tivesse comido algo há dois dias inteiros. Ou três.

Tudo o que eu consigo comer são algumas frutas e dar uma mordida na torrada, antes de Harry voltar preocupado com alguns cubos de gelo envoltos por uma toalha de rosto nas mãos.

“Acho que isto pode melhorar” mostra a toalha com alguns gelos em sua mão e se aproxima de mim.

Sento-me na cama e Harry fica entre minhas pernas, tendendo seu corpo sobre o meu. Suas mãos tiram meus cabelos de cima do machucado e seu dedo calejado tangencia minha testa. O toque é áspero, mas eu me sinto mais calma e segura com ele. As cenas que seguem correm como em câmera lenta e eu sinto um arrepio correr pela minha espinha. Ele pressiona com todo cuidado a toalha gelada no machucado e eu me encolho com a diferença de temperatura e dor.

“Me desculpa, Ceci! Não sabia que você estava atrás da porta” implora, concentrado na toalha em meu rosto “Julie pediu para eu pegar o café da manhã que sua empregada preparou para nós e eu.. eu só queria te alimentar antes de te deixar em casa.”

Harry está tão perto que sinto seu hálito chocar contra meu rosto e consigo ver todas as suas imperfeições. Observo-o atentamente, aproveitando o fato de que ele está tão concentrado no machucado e alheio às demais coisas que não percebe a atenção em demasia que estou irradiando sobre seu rosto. Seus lábios estão levemente curvados para o lado esquerdo e seus olhos estão vidrados em minha testa.

“Está tudo bem” afirmo “Não precisa se preocupar. Só… me leve para casa.”

“Tem certeza?” pergunta, passando uma das mãos em seus cabelos sedosos “Você não quer ir ao hospital?”

“Não” nego de imediato e me levanto rapidamente da cama “Eu vou ficar melhor.”

“Pelo menos segure isto em sua testa” me entrega a toalha e eu seguro sem relutar “Não vai fazer milagres, mas vai amenizar o inchaço.”

“Obrigada” agradeço e curvo meus lábios para um sorriso em agradecimento.

Passamos juntos pela sala vazia e gigantesca e entramos na garagem cheia de carros. Harry destrava o seu carro e o som das travas elétricas sendo destravadas retinem em meus ouvidos. Antes de entrar no carro, começo a observar o ferimento através do retrovisor. Não sei se abro a porta ou se corro porta afora. Meu reflexo no espelho é assustador e devastador; cabelos bagunçados, rosto amassado e há manchas pretas abaixo dos meus olhos da maquiagem que acabou escorrendo enquanto dormia, fazendo com que eu parecesse um panda. Não sei se o galo formado em minha testa é o maior dos meus problemas, no entanto.

“Por que não me avisou?” pergunto, entrando em seu carro “Estive todo esse tempo parecendo um panda e você nem pra ser um bom amigo e avisar, Harry” resmungo.

“Achei bonito” sorri maliciosamente “Achei que era tendência" tenta se defender, mas o sorriso malicioso ostentando em seu rosto o entrega descaradamente.

“Você. É. Um. Péssimo. Amigo” falo pausadamente e reviro os olhos.

“Assim você quebra meu coração, perdida” ele responde e me entrega um lenço para que eu possa limpar meus olhos.

Quando chegamos ao meu apartamento, Harry coloca um boné preto surrado e um óculos para não ser reconhecido e me acompanha até o portão com as mãos nos bolsos. O disfarce é péssimo, não consigo negar. Qualquer pessoa o reconheceria com eles.

“Você tem certeza de que não quer ir ao hospital?” pergunta e eu volto a negar, pressionando levemente a toalha em minha testa. Hospitais geralmente não me trazem boas lembranças e sempre que posso, evito de ir a qualquer custo.

“Você tem certeza de que esse é o seu melhor disfarce?” retruco rindo, tentando dispersar meus pensamentos tristes e saudosos.

“É um péssimo disfarce” ele afirma com um sorriso nos lábios “Mas costuma ser um aliado no dia a dia.”

“Boa sorte tentando se esconder, Roadie" falo, colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha “Obrigada por se preocupar.”

“Disponha, perdida!” me imita com os braços atrás das costas e me aguarda entrar no prédio para poder ir embora.

Fecho o portão com um sorriso iminente nos lábios e começo a subir as escadas para meu andar. O prédio antigo me dá o privilégio de cenários atemporais como as escadas de madeira e eu não consigo negar que sou apaixonada por arquitetura antiga. Geralmente, elas me deixam muito inspirada.

“Cecília” Hannah grita do final das escadas. Assim que escuto sua voz esganiçada, eu paro no meio das escadas para poder esperá-la. Ela tropeça em alguns degraus antes de me alcançar.

"Eu estou sonhando ou eu vi o Harry Styles sair do portão do nosso apartamento?" começo a pensar em como contar tudo para ela, voltando a subir as escadas quando ela consegue me acompanhar "Tudo bem. Eu não tive uma boa noite de sono."

As olheiras e a maquiagem borrada em seu rosto são perceptíveis de longe. Sua voz está rouca e ela atropela todas as palavras, denunciando seu elevado estado de embriaguez.

 "Ele esteve aqui" digo, segundos depois de criar coragem. Hannah provavelmente não irá se lembrar de nada que eu disse. Ela me encara com os olhos arregalados.

“O quê?” grita eufórica “O que diabos é isso na sua testa, Cecília?” pergunta preocupada, murchando seu sorriso aos poucos.

"Ficou maluca? Você vai acordar os vizinhos" arqueio a sobrancelha e ela sorri maliciosamente para mim.

"Eu não, mas parece que alguém teve uma ótima noite" diz animada e eu reviro os olhos No entanto, você sumiu a noite inteira e agora me aparece com um hematoma maior que uma bola de gude. Você sequer viu minhas ligações ou mensagens?”

“Só consegui ver agora cedo” respondo.

Se fosse alguma fã, estaria espalhando a notícia de que esteve com o Harry pelo mundo afora neste momento e não deixaria ele escapar pela manhã, mas eu sou apenas Ceci. Uma garota extremamente tímida e orgulhosa que não sabe lidar com homens. Acho que tenho um impasse.

"Mas não aconteceu nada, se é isso que está interessada em saber" quase sorrio com a careta que formou em seu rosto, mas me recomponho. Ela ficou tão feliz com minha declaração, talvez se decepcionasse se eu contasse que não quero me envolver e que, por mais que a minha vontade seja oposta, a razão grita querendo deixar tudo de lado.

"Então você passou a noite com ele e não rolou nada?" pergunta atônita e eu afirmo com a cabeça.

"Assistimos o começo de um filme" ela revira os olhos “E nos beijamos.”

"Isso é bom, mas seria muito melhor se rolasse alguma coisa a mais entre vocês dois" ela brinca e eu abro a porta do nosso apartamento.

“Mas você ainda não me contou e eu estou preocupada. O que aconteceu na sua testa?” pergunta, encarando-me fixamente.

“Oh, bem… Eu acabei batendo com a testa na porta. Foi tão desastroso, Hannah!” exclamo constrangida.

“Isso não me parece nada bom” fala com uma careta formada em seu rosto “Queria discutir sobre sua vida amorosa neste momento, mas eu estou exausta” Hannah boceja e amarra seus cabelos em um coque no alto da sua cabeça.

“Tudo bem” minutos depois escuto a porta do seu quarto bater.


Oiii! Como vocês estão?

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